domingo, 13 de dezembro de 2009

Ela

Desliguei o barulho irritante do despertador. Acordei. Estalei toda e qualquer estrutura óssea do meu corpo e depois de dez segundos levantei.

Liguei o rádio e voltei para o quarto pegar meus chinelos; nas manhãs de Julho, os azulejos da cozinha parecem pedras de gelo.

Limpei a cafeteira e imediatamente depois coloquei-a pra funcionar.

Voltei ao quarto, peguei meu copo azul, meu bebdouro das madrugadas insones e levei pra cozinha.

Aumentei o som do rádio, peguei duas fatias de pão de forma e coloquei requeijão. Pus duas colheres de açúcar no copo azul, preenchi até quase a borda de café e fui comer na janela da sala.

Comi tão rápido quanto uma música da Elba Ramalho pode durar e voltei mais uma vez ao quarto, peguei um dinheiro que tava dentro da Bíblia, coloquei o vestido do dia anterior e rua.

Duzentos gramas de queijo provolone e de queijo minas, cem gramas de azeitonas verdes e cinquenta de pretas; uma escova de dentes; um rolo de papel alumínio; a revista Claudia com a capa “10 Motivos para perdoar um EX”, limões e uma garrafa de vinho chileno de setenta e oito reais foram riscados da minha lista e eu voltei para casa preparar o pernil.

Foi o tempo de eu tirar o pernil do congelador, a Fátima chegou.

Peguei o banquinho na área de serviço, meu alicate no quarto, levei o rádio pra sala e comecei a virar a cobaia da Fátima, que experimentava em mim a tal “francesinha” que tinha aprendido no curso de manicure.

Sem tirar nenhuma cuticula, ela deixou minhas unhas lindas e justamente na hora que olhei para elas eu entendi o por quê da “francesinha”; eu não me sentia mais uma plebéia brasileira (risos), como sou rídicula.

Enfim, fui no quarto pegar os dez reais para a Fátima e um gibi pro filho dela, quando passei pela cozinha, a Fátima estava esfaqueando o pernil como quem esfaqueia um marido traidor.

“Fátima!”, berrei sem sentir, “o que está acontecendo aqui?”, não consegui dizer mais nada.

“Tem que botar o pernil pra respirar”, foram as palavras dela, depois apontou para os limões abertos no sol dizendo que só assim o limão ficava com gosto de limão e completou dizendo que se eu desse mais quinze reais para ela, ela prepararia o jantar para mim.

Sem pestanejar fui até a Bíblia e peguei mais quinze reais. Fazia anos que eu não comia nem preparava carne de porco. Estava aliviada.

Enquanto a Fátima fazia meu jantar virar realidade, eu cortava os queijos em pequenos cubos.

Depois de cobrir o pernil num papel alumínio, Fátima se despediu, colocou o dinheiro dentro do sutiã e fui leva-la até o corredor. Ela foi pela saída de emergência, dizendo que preferia encarar seis andares de escada do que correr o risco do elevador cair com ela dentro. Vá entender.

Do corredor mesmo pude ouvir a deprimente música da “Hora do Brasil”, desliguei o rádio e voei para o banho.

Ainda enrolada numa toalha comecei a me maquiar, tirei o queijo da geladeira, sequei meu cabelo; vesti uma saia amarela, que valorizava meus quadris, e uma blusa que minha mãe tinha me dado de presente; levei as taças para a mesinha de centro da sala, escovei os dentes, coloquei uma meia-calça; peguei o queijo cortado e botei numa travessa pequena de inox, fiz o mesmo com as azeitonas, coloquei as duas travessas ao lado das taças, liguei para ele, (pausa) desligado.

Fechei os olhos, desliguei o telefone antes que caísse na caixa postal, respirei fundo e fui tirar o pernil do forno, pus a sandália prata que a Dalva tinha me emprestado. Liguei de novo, nada. Peguei o vinho na geladeira. Liguei mais uma vez e tive vontade de zunir o telefone janela abaixo. Procurei um cigarro, não achei. Li o gibi que a Fátima acabou esquecendo, abri a garrafa de vinho e enchi o copo azul até a borda. Sentei no sofá, li os “Dez motivos para se perdoar um EX” na revista Claudia.

Esvaziei o copo azul em três goladas e fui para a janela ligar pela última vez.

Meus olhos não queriam acreditar, parecia miragem, mas eu tinha certeza que era ele, eu o reconheceria em meio a uma multidão. Meus olhos não queriam acreditar, mas ele estava lá e eu aqui, eu na mesma janela e ele no mesmo bar, na mesma mesa. A mesma mesa com uma puta de no máximo dezoito anos com as coxas de fora, meia duzia de garrafas de cerveja e um cinzeiro tão sujo quanto o ódio que era transformado em lágrimas que salgavam o meu rosto. Parecia que eu ouvia o som do atrito que a mão dele fazia na coxa nua dela. Meus olhos acreditaram.

A revista Claudia não me convenceu. Peguei o mesmo alicate que a Fátima tinha usado a tarde, cortei a grade de proteção e pulei.

domingo, 26 de outubro de 2008

Basta estar vivo

Felipe estava internado no CTI de um hospital pediátrico desde seu aniversário de oito anos.
Ao longo desses três intermináveis e duros meses de martírio, todos saíam abalados do leito 14.
Enfermeiras rezavam na capela, médicos faziam conferências com outros médicos para pelo menos tentar chegar perto da cura que parecia tão distante.
A mãe largou o emprego e trocou a casa pela poltrona da sala da recepção. O pai dobrou seu horário de trabalho para conseguir mais dinheiro e pagar os medicamentos de Felipe em sua nova casa.
A cada dia o seu quadro piorava: eram convulsões cada vez mais freqüentes, estava ficando cada vez mais fraco e começando a perder a voz. Comia cada vez menos e raramente sorria.
Chegou a notícia de que um médico russo chegaria para tentar um novo tratamento.
No dia anterior da chegada do médico russo, as unhas de Felipe começaram a cair e seus dentes amoleceram. O fim parecia próximo.
O médico russo era a única salvação.
Do aeroporto foi direto para o centro cirúrgico.
Durante a operação, todos no hospital foram para a capela interceder pelo sucesso da cirurgia, que só teria dois caminhos: ou a cura ou o descanso eterno para Felipe.
A tensão na mesa de cirurgia era proporcional à força da oração na capela. Enfermeiros, médicos, todas as mães das outras crianças, toda família de Felipe, até os porteiros e recepcionistas do hospital estavam numa profunda vigília.
Após sete longas horas, Felipe reagiu bem à cirurgia e sobreviveu. A comoção era geral. Os pais de Felipe falavam que deviam a vida ao médico russo.
Felipe iria voltar para casa em 48 horas.
O médico russo estava exausto e só pensava em descansar para voltar à Rússia.
Pegou um táxi na porta do hospital, eram quase 4 da manhã. Queria ir para o hotel mais próximo e dormir algumas horas.
Como num toque de mágica, um outro carro surge numa velocidade altíssima na contramão. O taxista não conseguiu desviar.
Ninguém sobreviveu.

sábado, 25 de outubro de 2008

Amanda era a única de suas amigas que sabia beijar. Seu aniversário de 15 anos se aproximava e ela precisava aprender, pois seria vergonhoso dançar a valsa e não dar um beijo apaixonante no final da dança.
O primeiro problema era escolher o seu parceiro, o seu príncipe encantado.
Eduardo não podia, era testemunha de Jeová, ou seja, não freqüentava festas. Bernardo também não podia, pois Kely era apaixonada por ele e isso seria uma traição imperdoável.
Cássio tinha herpes, Davi bafo, Alessandro bigode, Fábio e Fernando eram irmãos, convidando um o outro morreria de ciúmes.
Não podia ser um garoto qualquer, tinha que ser alguém paciente, pois teria que ensiná-la a beijar.
O seu maior medo era morder a língua do menino durante o beijo e o colégio inteiro ficar sabendo.
Inventou uma vizinha que não sabia beijar para Kely, que indicou para a tal vizinha treinar com uma laranja ou com gelo.
Por achar beijar uma laranja meio nojento, preferiu treinar com gelo. Sua garganta inflamou e teve que ficar uma semana em casa tomando antibióticos.
Quando voltou ao colégio teria somente mais duas semanas para encontrar o seu príncipe para sua festa.
Essas duas semanas passaram em segundos e Amanda não tinha encontrado ninguém. Na véspera de sua festa, após chorar durante sete horas em seu travesseiro, Kely chegou na sua casa com pipoca e um filme “Uma Linda Mulher” durante o filme, Amanda descobriu que as prostituas eram mulheres lindas que teriam homens como o Richard Gere apaixonados por ela e que não beijavam, faziam tudo, menos beijar.
Amanda chamou os pais e disse:
“Não quero mais festa, nem príncipe, quero ser prostituta!”