Desliguei o barulho irritante do despertador. Acordei. Estalei toda e qualquer estrutura óssea do meu corpo e depois de dez segundos levantei.
Liguei o rádio e voltei para o quarto pegar meus chinelos; nas manhãs de Julho, os azulejos da cozinha parecem pedras de gelo.
Limpei a cafeteira e imediatamente depois coloquei-a pra funcionar.
Voltei ao quarto, peguei meu copo azul, meu bebdouro das madrugadas insones e levei pra cozinha.
Aumentei o som do rádio, peguei duas fatias de pão de forma e coloquei requeijão. Pus duas colheres de açúcar no copo azul, preenchi até quase a borda de café e fui comer na janela da sala.
Comi tão rápido quanto uma música da Elba Ramalho pode durar e voltei mais uma vez ao quarto, peguei um dinheiro que tava dentro da Bíblia, coloquei o vestido do dia anterior e rua.
Duzentos gramas de queijo provolone e de queijo minas, cem gramas de azeitonas verdes e cinquenta de pretas; uma escova de dentes; um rolo de papel alumínio; a revista Claudia com a capa “10 Motivos para perdoar um EX”, limões e uma garrafa de vinho chileno de setenta e oito reais foram riscados da minha lista e eu voltei para casa preparar o pernil.
Foi o tempo de eu tirar o pernil do congelador, a Fátima chegou.
Peguei o banquinho na área de serviço, meu alicate no quarto, levei o rádio pra sala e comecei a virar a cobaia da Fátima, que experimentava em mim a tal “francesinha” que tinha aprendido no curso de manicure.
Sem tirar nenhuma cuticula, ela deixou minhas unhas lindas e justamente na hora que olhei para elas eu entendi o por quê da “francesinha”; eu não me sentia mais uma plebéia brasileira (risos), como sou rídicula.
Enfim, fui no quarto pegar os dez reais para a Fátima e um gibi pro filho dela, quando passei pela cozinha, a Fátima estava esfaqueando o pernil como quem esfaqueia um marido traidor.
“Fátima!”, berrei sem sentir, “o que está acontecendo aqui?”, não consegui dizer mais nada.
“Tem que botar o pernil pra respirar”, foram as palavras dela, depois apontou para os limões abertos no sol dizendo que só assim o limão ficava com gosto de limão e completou dizendo que se eu desse mais quinze reais para ela, ela prepararia o jantar para mim.
Sem pestanejar fui até a Bíblia e peguei mais quinze reais. Fazia anos que eu não comia nem preparava carne de porco. Estava aliviada.
Enquanto a Fátima fazia meu jantar virar realidade, eu cortava os queijos em pequenos cubos.
Depois de cobrir o pernil num papel alumínio, Fátima se despediu, colocou o dinheiro dentro do sutiã e fui leva-la até o corredor. Ela foi pela saída de emergência, dizendo que preferia encarar seis andares de escada do que correr o risco do elevador cair com ela dentro. Vá entender.
Do corredor mesmo pude ouvir a deprimente música da “Hora do Brasil”, desliguei o rádio e voei para o banho.
Ainda enrolada numa toalha comecei a me maquiar, tirei o queijo da geladeira, sequei meu cabelo; vesti uma saia amarela, que valorizava meus quadris, e uma blusa que minha mãe tinha me dado de presente; levei as taças para a mesinha de centro da sala, escovei os dentes, coloquei uma meia-calça; peguei o queijo cortado e botei numa travessa pequena de inox, fiz o mesmo com as azeitonas, coloquei as duas travessas ao lado das taças, liguei para ele, (pausa) desligado.
Fechei os olhos, desliguei o telefone antes que caísse na caixa postal, respirei fundo e fui tirar o pernil do forno, pus a sandália prata que a Dalva tinha me emprestado. Liguei de novo, nada. Peguei o vinho na geladeira. Liguei mais uma vez e tive vontade de zunir o telefone janela abaixo. Procurei um cigarro, não achei. Li o gibi que a Fátima acabou esquecendo, abri a garrafa de vinho e enchi o copo azul até a borda. Sentei no sofá, li os “Dez motivos para se perdoar um EX” na revista Claudia.
Esvaziei o copo azul em três goladas e fui para a janela ligar pela última vez.
Meus olhos não queriam acreditar, parecia miragem, mas eu tinha certeza que era ele, eu o reconheceria em meio a uma multidão. Meus olhos não queriam acreditar, mas ele estava lá e eu aqui, eu na mesma janela e ele no mesmo bar, na mesma mesa. A mesma mesa com uma puta de no máximo dezoito anos com as coxas de fora, meia duzia de garrafas de cerveja e um cinzeiro tão sujo quanto o ódio que era transformado em lágrimas que salgavam o meu rosto. Parecia que eu ouvia o som do atrito que a mão dele fazia na coxa nua dela. Meus olhos acreditaram.
A revista Claudia não me convenceu. Peguei o mesmo alicate que a Fátima tinha usado a tarde, cortei a grade de proteção e pulei.
